Empresária e especialista em branding fala sobre a ascensão das micromarcas médicas e aponta três pilares que estão redefinindo a escolha por profissionais no Brasil

A figura do médico como apenas um prestador de serviço vem dando lugar a um novo perfil profissional. Impulsionados pelo aumento da concorrência e pela mudança no comportamento dos pacientes, cada vez mais médicos têm investido em posicionamento estratégico e construção de uma marca pessoal.

Para a empresária e estrategista de branding para médicos Sabrina Isabela, fundadora da Agência Fever, especializada em marketing digital para profissionais da saúde, essa transformação está diretamente ligada à forma como as pessoas consomem serviços hoje. “Hoje, para consumir o serviço prestado por um profissional, as pessoas sentem a necessidade de se conectar com esse profissional, com o estilo de vida dessa pessoa”, afirma.

Do anonimato à construção de marca

Historicamente, muitos médicos atuavam nos bastidores de grandes clínicas, hospitais ou planos de saúde, com pouca preocupação em desenvolver uma identidade própria. Segundo Sabrina, esse modelo já não atende às exigências atuais do mercado.

“Hoje a gente tem muito médico no mercado, muito mais do que antigamente, e eles precisam de maneiras de conquistar os pacientes ”, explica. Para ela, o profissional precisa entender que, assim como qualquer produto, também possui uma “embalagem” que corresponde à forma como se apresenta ao público.

A especialista defende que não há especialidade que não se beneficie da construção de marca. “Na minha opinião, não existe uma especialidade médica hoje que não se beneficie do médico se tornar uma marca. Se posicionar como uma marca e não só como um prestador de serviço.”

Presença digital não é sinônimo de posicionamento

Embora as redes sociais sejam hoje um dos principais canais de contato entre médicos e pacientes, Sabrina ressalta que estar presente nessas plataformas não garante um posicionamento estratégico.

“Estar nas redes sociais é diferente de estar na rede social com um objetivo e sabendo o que se quer comunicar para as pessoas ali”, afirma. Segundo ela, muitos profissionais produzem conteúdo sem alinhamento com seus objetivos. “O médico quer tratar câncer de pele, mas ele está só falando de botox.”

A busca por viralização, segundo a estrategista, também pode gerar distorções. “Uma conta viralizada, que está bombando nas redes, não significa um médico que tem um volume de pacientes no consultório”, diz. Para ela, perfis menores, mas com narrativa bem definida, tendem a formar comunidades mais engajadas e alinhadas ao perfil de paciente desejado.

Os pilares das micromarcas médicas

De acordo com Sabrina, três elementos sustentam uma micromarca médica forte: narrativa, experiência e comunidade.

O primeiro pilar envolve clareza sobre o que o profissional quer comunicar e quais valores deseja associar ao próprio nome. O segundo está relacionado à jornada do paciente. “Não basta eu mostrar as coisas certas. Quando essa paciente clicar no botão do WhatsApp, ela vai ter que ser atendida de forma encantadora”, afirma.

Já o terceiro pilar é a construção de uma microcomunidade. Em vez de falar com todos, o médico deve focar em um público específico, fortalecendo vínculos e gerando identificação.

Ética no ambiente digital

A adoção de estratégias de personal branding ainda gera resistência entre parte da classe médica, que teme associar marketing à perda de credibilidade. Para Sabrina, essa visão está ultrapassada, ela destaca que o personal branding não se resume à exposição exagerada ou à adoção de fórmulas prontas. “O personal branding é olhar pro médico e saber até onde que ele vai, o que que eu preciso valorizar nele.”

Sobre os limites éticos, a especialista reforça a necessidade de cautela. “Ele tem que ter alguns cuidados, como na hora de falar de resultados, porque cada paciente tem um histórico diferente do outro”. Segundo ela, o próprio Conselho Regional de Medicina (CRM) tem reconhecido que o ambiente digital faz parte da realidade profissional contemporânea.

O peso das redes na decisão do paciente

Na avaliação da estrategista, o posicionamento online já exerce influência significativa na escolha do paciente, muitas vezes superior à análise curricular.

“A maioria das pessoas hoje procuram um profissional na rede social”, afirma Sabrina. Nesse cenário, o médico que aparece com frequência tende a ser lembrado mais pelo posicionamento do que pelo tempo de carreira, de acordo com a especialista.

Para Sabrina, a ascensão das micromarcas médicas reflete uma adaptação necessária ao novo contexto competitivo. “No momento que o profissional decide se tornar um médico que quer ganhar mais, que quer crescer, que quer ter mais pacientes ou uma clínica própria”, diz, a construção de marca é indispensável.

A tendência indica que, nos próximos anos, a diferenciação entre profissionais de medicina dependerá não apenas da formação técnica, mas também da capacidade de comunicar valor, criar conexões e oferecer experiências coerentes com a própria proposta de atendimento.