
Entrevista | “A poesia é a escuta do que ainda não sabemos dizer”
Univali | Seu livro se chama Afetos in-versos. Como nasceu esse título — e o que ele significa para você?
Thamara | O título surgiu da própria experiência de escrever. Eu percebia que os afetos mais intensos — amor, luto, desejo, ausência — sempre se manifestavam pelo avesso das palavras. O “in-verso” é esse lugar em que o sentir se dobra sobre si mesmo, onde a palavra tenta dizer o indizível. É também um jogo: falar de afeto é, inevitavelmente, falar do que escapa à razão.
Univali |Você é filha do artista plástico Antônio Mir. Que herança estética e emocional a arte do seu pai deixou em você?
Thamara | Meu pai foi uma das maiores influências na minha vida. Cresci entre ateliês, tintas e conversas sobre arte. Ele tinha uma capacidade impressionante de enxergar beleza nas fissuras, nos acasos, nas coisas que o tempo desgasta. Acho que herdei isso, essa sensibilidade de encontrar poesia nos interstícios.
Há uma memória muito viva: um almoço de domingo em São Francisco do Sul, quando um raio de sol iluminou uma planta que crescia entre as pedras de uma parede antiga. Meu pai e eu paramos tudo para contemplar aquele instante. Esse olhar para o efêmero que ele sempre carregou, para o detalhe, moldou minha forma de escrever.
Univali |E sua mãe, enquanto professora, também influenciou no seu modo de pensar a poesia?
Thamara | Com certeza. A sensibilidade e o olhar humanista da minha mãe sempre me atravessaram. Ela me ensinou que o conhecimento não é só o que se aprende nos livros, mas também o que se sente e se compartilha. Acho que a educação e a poesia partilham o mesmo gesto: ambas buscam criar pontes entre mundos.
Univali |E quanto à importância da Univali na sua formação, que memórias afetivas te acompanham dessa época?
Thamara | A Univali foi o lugar onde aprendi a escutar de verdade o outro e a mim mesma. Lembro das conversas nos corredores, das tardes no gramado, dos cafés no bar do Pedro e dos debates intensos nas aulas de Psicanálise.
A professora Geselda Baratto teve um papel decisivo na minha trajetória. Foi orientadora, referência e presença constante, mesmo depois da formatura. É o tipo de professora que não ensina apenas teoria, mas uma ética do cuidado, da escuta e da palavra.
Univali |Há alguma lembrança especial da tua vivência universitária para compartilhar?
Thamara | Sim! Estávamos organizando um congresso e precisávamos de uma frase que expressasse o espírito do evento. Eu sugeri: “Ser diferente não é ser de outro mundo.” Meus colegas adoraram e ela acabou virando slogan. Hoje, percebo como essa frase dialoga com tudo o que venho escrevendo. Ela fala sobre singularidade, alteridade e pertencimento, que são temas centrais tanto na clínica quanto na poesia. Foi muito bom lembrar desse episódio, fiquei com vontade de escrever um poema inspirado nessa frase e no seu significado.
Univali |Seu livro fala de perda e ressignificação. Como esses temas se manifestam na sua escrita?
Thamara | A perda atravessa a vida e a poesia é o modo que encontrei de elaborar essas ausências. Perder não é só sofrer; é também abrir espaço para o que pode nascer depois. Escrever é esse gesto de reinvenção. É dizer: “isso me atravessou, mas não me definiu”.
Univali |O que você diria a quem sente vontade de escrever, mas teme se expor?
Thamara | Diria que escrever é um ato de coragem, não porque exige bravura diante dos outros, mas porque nos obriga a encarar o que somos. A escrita nunca está pronta, nunca é definitiva. E talvez por isso ela seja tão libertadora. Deleuze já anunciou: “escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida”. Por isso meu recado é: escreva!
Univali |E o que mais te move hoje: a psicologia ou a poesia?
Thamara | As duas se confundem. A clínica me ensina a escutar o outro; a poesia me ensina a escutar o silêncio entre as palavras. Talvez sejam caminhos paralelos que, de algum modo, se encontram no mesmo ponto: o humano.













