Por Joacir Dal Sotto *

Chega um ponto que não existe mais conexão com o mundo, tuas redes sociais não são mais vistas e também deixam de receber qualquer tipo de atualização, você não consegue mais sair de casa por conta própria e por vezes nem da cama sem ajuda de terceiros, os teus joelhos doem e tua coluna também, tua memória é falha para coisas cotidianas e atuais, tua memória dói quando você pensa em tudo que deixou de fazer por vaidade ou preocupação demasiada pelo dinheiro, é o tempo triste em que os teus pais foram substituídos pelos teus filhos ou pelos teus netos.
Minha velhice é perceber que o riso é para morte ou para coisas que não posso mais levar como recompensa, minha velhice é vazia e sombria ou seriamente alegre na passarela da despedida, eu não consigo mais enxergar os pássaros na janela e careço de pessoas para ouvirem minhas histórias ou aflições, fui tão ouvido e talvez eu era ouvido por ter algo para dizer, agora parece que o mundo não quer ouvir-me ou eu não tenho nada mais para dizer.
Dizer, parece que tudo na vida vazia resume-se em dizer algo e fazer algo, ser melhor ou ter melhores condições para tua família, parece que só somos caridosos quando fazemos promessas e quando tristemente fazemos algo para outros sem que nossa noite de sono seja prejudicada.
Nessa velhice tenho vontade de chorar, de fugir, de contribuir com o mundo sem ter que usar tantas palavras, o dinheiro não é mais importante, o começo da minha velhice é como toda velhice, eis que o começo é o fim ou a necessidade do fim em nome da excessiva embriaguez da juventude.
Olhe mais para quem está ao teu redor e não cobre tanto das pessoas ao teu redor, tenha confiança, tenha amor, tenha uma energia que possa ajudar o tempo que ainda resta que você e nem eu controlamos ou contratamos.

* Corretor de imóveis, escritor e filósofo.